"Já ali ele existia quando então tudo lhe surgiu, o relance primeiro do tudo. A Gênesis do primeiro deleite, da descoberta em rompimento, da ruptura brusca que lhe pariu ali em queda livre, na primeira malícia, primeiro segredo, primeira vontade inconsequente e mundana.
No poder de um conhecimento inconcebível e incomunicável e deste então, desde então um conflito impreciso de prazeres, confusões e descaminhos, um tatear sem fim, os olhos secos no espelho refletindo um jogo de xadrez sem tabuleiro, sombras de um mar revolto e sem trégua, silhuetas de um tango selvagem, pegadas de outros passos a lhe conduzir. Um fino e prazeroso incômodo, infindo, inquietante, conflito errante, eterno Adão.
Em meses se fez cego, hedônico, demente, tentou ser ateu, autista, negou, fugiu, ignorou, sim, mas não, por mais que se distraia, por mais que tente, sente um vazio presente que contrasta e dilui e confunde o menor e mais puro conforto do Calor, a menor satisfação, intangível satisfação.
Nada lhe era permitido além do intraduzível sentir. E assim ia carregando consigo a eternidade de uma dúvida mal percebida, mal consumida, de um tropeço sem chão; Humanidade. Até que se cansa e se joga. Mergulha profundo no mais extenso dos abismos, do íntimo Eu, à procura inconsciente da única ilha desconhecida, do verdadeiro paraíso perdido; basta dizer que todo labirinto entrega uma só saída e em determinado momento se encontra encolhido frente à porta, no conforto do abstrato, eterno fruto do bem e do mal, Éden simbólico. Se entrega em abrigo de livros e descansa no deleite do brincar de buscar, puro divertimento, anagramas semânticos. Até que num piscar de olhos, epifania e já não mais se ilude. Vê e Crê: ‘O Amor nos libertará como um raio’.
Já enxerga o invisível e, em segundos, nova ruptura, desembaraço, renascerá. Perfeito paradoxo. No momento em que se tornará claro ser falho, em que os olhos primeiro e de fato se abrirem, em que haverá validade real até nas coisas pequenas em se a alma não sendo; Na ilusão da morte, um recomeço. Com a primeira e verdadeira lágrima cairá o véu fino e ilusório da mentira, perceba e é real: Há um plano cartesiano perfeito sobre todas as nossas cabeças, planando delineado acima dos desejos e do mundo, a anos luz de distância e a centímetros de nosso alcance. Independente do ponto impreciso do mapa há sempre e sempre haverá um encontro perfeito de traços abertos a sutilmente te cobrir e te envolver, braços irmãos estendidos ad infinitum, abraço no ar, bandeira em riste, eterno norte e, frente a até então incontida maré, frente à simplicidade da advertência de Ló (ou mesmo Orfeu), obstina-se sem medo no adiante; pé ante pé, sem olhar pra trás, sem tocar o chão."